Você já reparou que seu cachorro, antes tão ativo, começou a andar pela casa sem rumo, ou talvez tenha ficado parado encarando um canto da parede por minutos a fio? É comum a gente colocar a culpa no “peso da idade”. Pensamos logo que é apenas o cansaço natural ou uma simples perda de visão. Mas, muitas vezes, o que estamos vendo é o reflexo da Síndrome da Disfunção Cognitiva (SDC), uma condição que se assemelha bastante ao Alzheimer em humanos. O que acontece na mente do seu pet A disfunção cognitiva não é uma falha de caráter ou teimosia. Ela ocorre devido a alterações neuroquímicas e degenerativas no cérebro do animal. Com o tempo, as células cerebrais diminuem sua eficiência e o fluxo sanguíneo não é mais o mesmo. Isso gera uma confusão mental que se manifesta de formas que, se você não estiver atento, podem passar despercebidas até que se tornem problemáticas. Um exemplo clássico que atendo no consultório é o cão que perde o “sentido de direção” dentro da própria casa. Ele entra em um cômodo, chega perto da parede e não sabe como contornar o móvel para sair. Ou aquele companheiro que, de repente, esquece onde fica a porta de entrada e começa a latir para o nada, ou para o vazio, como se estivesse perdido. Se o seu cão começou a ter episódios de desorientação, não ignore. Não é “só velhice”. Sinais de alerta no comportamento diário Muitas vezes, a mudança começa de forma sutil, quase invisível. O ciclo de sono é um dos primeiros a ser afetado. Sabe aquele cachorro que dorme o dia inteiro e, quando chega a noite, começa a perambular, ofegar ou ficar agitado? Esse é um sinal de alerta clássico.
A desorientação espacial também é frequente. Veja se o seu pet apresenta estes comportamentos: Dificuldade em encontrar a tigela de água ou comida, mesmo que ela esteja no mesmo lugar de sempre. Esquecer sinais de treinamento básico que ele seguiu a vida toda, como o “senta” ou “fica”. Mudanças bruscas na interação social: ele pode ficar mais grudado em você ou, ao contrário, parecer preferir o isolamento total. Acidentes dentro de casa, mesmo sendo um cão que sempre teve hábitos rigorosos de higiene. Antes de qualquer diagnóstico, precisamos descartar dores crônicas ou problemas sensoriais. Um cão que não ouve bem ou que sente dor ao caminhar por causa de uma artrose também pode ficar confuso e retraído. Por isso, o check-up geriátrico é a nossa melhor ferramenta de defesa. Estratégias para manter a mente ativa A boa notícia é que podemos retardar a progressão dessa confusão mental com pequenas mudanças no dia a dia. O cérebro, tal como um músculo, precisa ser exercitado. Se o seu cão ainda tem disposição, não o deixe apenas deitado. Introduza novos estímulos. Jogos de faro, onde você esconde petiscos pela casa, são excelentes para manter o foco e a cognição. Além disso, a nutrição faz uma diferença enorme. Existem dietas formuladas com antioxidantes, ácidos graxos ômega-3 e triglicerídeos de cadeia média que ajudam a fornecer energia extra para os neurônios. Em alguns casos, o uso de medicamentos específicos prescritos pelo veterinário ajuda a melhorar a circulação cerebral e reduzir a ansiedade noturna. O segredo aqui é a paciência. Quando um cão entra nessa fase, ele fica inseguro. Ele não entende por que o mundo parece ter mudado de forma. Mantenha a rotina da casa o mais estável possível. Evite mudar móveis de lugar ou fazer grandes reformas nesse momento da vida dele. O seu cachorro passou anos tentando entender o seu mundo; agora, é o momento de você adaptar o ambiente para que ele se sinta seguro e acolhido, mesmo que a memória dele já não seja a mesma de antes. Observar essas mudanças com carinho permite que a gente ofereça uma qualidade de vida muito superior durante essa jornada final.